Testemunho do Escolástico Jesuíta Pradeep Aroquia
É bonito olhar para trás e recordar os nossos sorrisos de infância. O sorriso de cada criança guarda um desejo; e, dentro de nós, a criança continua a sorrir. Sou um Escolástico jesuíta da Província de Madurai, na Índia. Tenho 27 anos e estou há 11 anos na Companhia de Jesus. Hoje estou no Brasil, aprendendo português e preparando-me para estudar Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte.

Por que viajar tão longe? Por que o Brasil? Por que agora?
Perdi meu pai, deixando minha mãe sozinha em casa e meu irmão mais novo, que está fazendo mestrado em Aplicações Computacionais. Será que estou simplesmente seguindo o meu desejo, seguindo o sorriso que existe dentro de mim, enquanto deixo tantas pessoas chorando? Seguir um desejo não significa apenas sorrir; significa também viver lágrimas de alegria e de sacrifício.
Durante a escola, conheci um Escolástico jesuíta que era meu diretor auxiliar. Certa tarde, deixei alguns legumes no meu prato, coloquei-os sobre a mesa e os joguei fora. Quando ele perguntou por que eu não os havia comido, simplesmente respondi: “Irmão, eu não gosto.” Eu esperava que ele me repreendesse ou até me desse um tapa. Mas, em vez disso, com um sorriso, ele pegou os legumes e os comeu. Nunca esqueci aquele sorriso. Sua bondade me fez perguntar: O que eles realmente fazem na formação dos jesuítas? Será que ela é tão transformadora a ponto de formar uma pessoa com um sorriso tão genuíno?


Depois de terminar ao Ensino médio, disse ao meu pai que queria ser jesuíta. A vida trouxe problemas financeiros, questões de saúde e crises no caminho da vocação. Meu pai sofreu um acidente durante a etapa inicial da minha formação. Em 2019, durante meus estudos do Juniorato no Sri Lanka, fui vítima dos atentados da Páscoa e testemunhei centenas de pessoas dilaceradas em meio a um cenário de sangue. Meu irmão mais novo precisou passar por uma cirurgia grave, enquanto minha mãe cuidava dele durante a pandemia da Covid-19. Naquele momento, perdi o meu sorriso. O que pode haver de novo na vida em meio a tantas incertezas? Como posso continuar esperando? Onde encontro meu sorriso agora?




Fotos: Sri Lanka – atentado (créditos das fotos: BBC News)
Quando perguntei à minha mãe se deveria seguir para o Brasil, ela me disse: “Pradeep, você está vivendo uma situação semelhante à do Getsêmani. Jesus queria que o cálice doloroso fosse afastado, mas, ao mesmo tempo, queria cumprir a vontade de Deus. Você também está preocupado com seu pai e, ao mesmo tempo, sente que Deus o chama para o Brasil. Se for da vontade Dele, você irá para o Brasil.”
Meu pai sempre me dizia: “Pradeep, Deus cuida.” Ele repetiu essas palavras, guardando no coração seu sorriso para mim, e faleceu três dias depois da minha visita.
Hoje estou aqui no Brasil como missionário, trazendo comigo o mesmo sorriso simples para partilhá-lo com vocês: um sorriso de esperança, mas também um sorriso que conheceu as lágrimas.


Essa fé é fruto dos missionários que chegaram à minha terra. Um deles é São João de Brito, que aprendeu o Tâmil, anunciou a Boa-Nova em Tâmil, voltou para a Índia mesmo sabendo do perigo e se tornou mártir. Sua vida me recorda que a missão também significa receber e dar.
Hoje, muitos missionários vêm da Ásia e da África. Vejo isso como fruto daqueles missionários que viajaram para os nossos países e partilharam conosco sua fé, sua formação, sua educação e sua esperança. Agora é o nosso tempo de partilhar aquilo que recebemos, com gratidão. Como indiano e asiático, não venho porque tenho tudo para oferecer, mas porque também recebi muito.
O jesuíta Jerónimo Nadal disse: “O mundo é a nossa casa.” Talvez minha viagem da Índia ao Brasil seja uma pequena maneira de descobrir esta casa — não esquecendo de onde venho, mas levando comigo as minhas raízes e permitindo que o Brasil se torne parte da minha história.


Meu sonho é simples: continuar caminhando, levando este sorriso comigo, partilhando esperança e aprendendo a reconhecer a vontade de Deus através desta nova língua, desta rica cultura e até mesmo quando o caminho vier acompanhado de lágrimas.
E aos jovens do Brasil e da América Latina, digo simplesmente: continuemos sonhando. Não tenhamos medo das nossas lágrimas, das nossas incertezas ou dos nossos fracassos. Talvez, em algum lugar dentro de tudo isso, Deus esteja preparando um novo sorriso.




