Experiência promovida pela IRI Brasil reuniu lideranças religiosas e civis para refletir sobre o cuidado das florestas tropicais e os desafios socioambientais à luz do compromisso evangélico e da mobilização juvenil
Por Pe. Lucas Maurício, SJ via Centro MAGIS Burnier
Entre os dias 6 e 8 de maio, representantes de diferentes tradições religiosas, organizações sociais e lideranças civis participaram de uma imersão promovida pela Iniciativa Interreligiosa pelas Florestas Tropicais – IRI Brasil, realizada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). O encontro teve como objetivo sensibilizar e formar lideranças para a mobilização em defesa das florestas tropicais, promovendo diálogo entre ciência, espiritualidade e compromisso socioambiental. O Centro MAGIS Burnier esteve presente como representação da Rede Inaciana de Juventude no Centro-Oeste e Tocantins.
A experiência da imersão no INPE e no CEMADEN mostrou algo muito importante: hoje já não é possível falar de evangelização juvenil sem considerar seriamente a crise socioambiental. Os dados científicos apresentados deixam claro que o cuidado com as florestas tropicais não é apenas uma pauta ecológica, mas uma questão humana, espiritual, social e até civilizatória. Traduzir essas informações para o contexto da Rede Inaciana de Juventude no Centro-Oeste e Tocantins significa, antes de tudo, aproximar a ciência da vida concreta dos jovens e de seus territórios.
Nossa região vive diretamente os impactos das mudanças climáticas: queimadas, secas prolongadas, eventos extremos, insegurança hídrica e vulnerabilidade social. Muitos jovens convivem diariamente com essas realidades, mas nem sempre conseguem relacioná-las com escolhas econômicas, políticas e culturais mais amplas. A contribuição da Rede Inaciana pode estar justamente em ajudar os jovens a fazer essa leitura crítica da realidade, à maneira inaciana: contemplar, discernir e agir.
A espiritualidade inaciana oferece instrumentos muito ricos para isso. O princípio do “encontrar Deus em todas as coisas” amplia a compreensão do cuidado da criação, a partir da experiência de Deus e do compromisso evangélico. A Ecologia Integral proposta pelo Papa Francisco na Laudato Si’ reforça exatamente essa conexão entre fé, justiça social e cuidado ambiental. Não existe separação entre o grito da terra e o grito dos pobres. E no Centro-Oeste isso aparece de forma muito concreta nas populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, periferias urbanas e comunidades afetadas por desastres ambientais.
Nesse sentido, as informações recebidas na imersão podem ser traduzidas em processos formativos com jovens, experiências de contato com os territórios, campanhas de conscientização, incidência pública e fortalecimento de redes locais de cuidado ambiental. O Centro MAGIS Burnier tem grande potencial de mobilização, sobretudo porque une espiritualidade, formação crítica e ação concreta.
A presença da Igreja nesses espaços é extremamente relevante porque ela possui capilaridade, credibilidade comunitária e capacidade de mobilização ética. Muitas vezes, a ciência consegue demonstrar os dados, mas encontra dificuldade em sensibilizar afetivamente as pessoas. A Igreja, por sua vez, alcança dimensões simbólicas, espirituais e comunitárias profundas. Quando ciência e fé dialogam, cria-se uma força social muito mais ampla para promover mudanças culturais.
Além disso, ser presença nesses ambientes ajuda a romper uma falsa oposição entre fé e ciência. Participar de espaços como o INPE e o CEMADEN demonstra que a Igreja pode colaborar ativamente com pesquisadores, instituições públicas e organizações civis na construção de respostas concretas para os desafios ambientais contemporâneos.
Por fim, a presença da Igreja nesses meios também possui um caráter profético. Em um contexto marcado pelo negacionismo climático, pelo descarte da vida e pela exploração predatória dos biomas, testemunhar o Evangelho implica defender a dignidade humana e a preservação da Casa Comum. Para nós do Centro MAGIS, isso significa compreender que fé e compromisso socioambiental caminham juntos. Como recorda a tradição inaciana, o amor deve manifestar-se mais em obras do que em palavras, e hoje uma das obras mais urgentes é justamente cuidar da criação, cuidar das pessoas e do futuro das próximas gerações.
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